sexta-feira, 31 de julho de 2009

Carlos Evandro Alves da Silva




Ontem recebi uma ligação do Evandro. Consultou-me sobre um procedimento da BM. O Evandro é um amigo estimado. Um cidadão e empresário gaúcho exemplar. Líder no seu ramo gráfico. É assíduo na FIERGS. Inteirado da situação que o Evandro me participou, liguei para colegas da Brigada. De lá para cá fiz algumas reflexões e lembrei de uma história que vivi na BM.

Fui encarregado de fazer um inquérito policial. Um jovem bandido preso pela Brigada, denunciou que foi agredido por um dos PMs que o prendeu. Foi preso minutos após praticar um roubo, contra um casal no Parque da Redenção, em Porto Alegre, botando uma faca no pescoço de uma moça. Levou sua bolsa e o celular do namorado que a acompanhava. Convoquei o soldado para ser ouvido sobre o caso e ele admitiu ter de fato usado da força para dominar o ladrão que tentou escapar a prisão. Depois de ouvir o soldado fui na FASE (antiga FEBEM) ouvir o jovem preso.

Cumprida a missão, retornava para o quartel quando paramos a viatura para dar lugar a passagem de um carro que vinha no sentido contrário. A rua era muito estreita. A motorista teve que desviar da viatura. Ao desviar, olhou para nós e nos disse um "senhor palavrão". Fomos atrás dela. A motorista entrou no pátio de uma escola. Entramos atrás. Descemos e, sem meias palavras perguntei? - Porque a senhora nos ofendeu? A motorista desconversou e disse que estava nervosa. Botou a culpa no trânsito. Pedi seus documentos e do veículo. Ela atendeu. Logo vi que estava com o licenciamento do veículo vencido.

Em seguida, percebi também que já estava cercado de professoras e pela própria diretora da escola que se apresentou. Para me certificar, perguntei a motorista se ela era professora. Assentiu com a cabeça. Informei a ela que seu licenciamento estava vencido. Ela mostrou-se muito surpresa. Informei que isso era menos grave do que desrespeitar um policial em serviço, como ela havia feito.

A professora, pálida, não sabia o que fazer. Tranquilizei-a dizendo que aceitava um sincero pedido de desculpas pela ofensa proferida contra nós, como reparação do dano. Ela, educadamente, recomposta, pediu desculpas, encabulada. Aceitei. Em seguida disse a professora que tinha muito respeito por ela e suas colegas de trabalho. Delas depende nosso futuro como nação pelo fortalecimento da Educação. Sempre estimei meus professores. É uma classe de trabalhadores que deve ser muito mais valorizada no Brasil.

A professora quis saber então o que eu faria com o carro dela. Perguntou se eu iria recolhê-lo. Ficou surpresa quando respondi que não, junto com todas suas colegas. Expliquei, se eu recolhesse seu carro, inevitavelmente, ficaria contrariada com a Brigada, junto com suas colegas presentes. Ansiosa perguntou já afirmando que estava liberada. Respondi que sim, com uma condição. A professora com novo ar de surpresa indagou que condição seria essa. Simples, eu disse. A senhora deverá pagar o seu IPVA nas próximas 24 horas e me apresentar o comprovante de quitação, no 9º BPM, onde sirvo. No dia seguinte, lá estava a professora, visitando o quartel, sorridente, com seu IPVA pago, segundo me relatou um colega oficial que recepcionou a professora. Eu não estava no momento da sua visita. Para não haver dúvidas, a professora deixou uma cópia do comprovante de pagamento com meu colega que o fez chegar as minhas mãos.

Gostaria que os meus colegas da Brigada não tivessem recolhido e ainda multado o funcionário do Evandro que dirigia uma doblô da Print Press Indústria Gráfica, ontem, em Cachoeirinha, porque o carro não tinha licenciamento para trafegar. A multa e o recolhimento não são o primeiro, nem o único recurso nessas horas. Meus irmãos brigadianos agiram de acordo com a mais absoluta legalidade e profissionalismo mas, pela experiência que possuem, tem discernimento e elementos para saber se podem ou não confiar no condutor e propor uma legalização imediata da sua documentação.

No caso do funcionário do Evandro, ele estava com o IPVA devidamente pago, mas o Sistema do DETRAN, informou aos meus colegas da BM que o veículo não estava licenciado, em razão de um acidente de trânsito.

Um motorista embriagado colidiu com a camioneta do Evandro que mandou consertá-la através da sua seguradora. No registro deste acidente constou que o dano nos veículos foi de grande monta. Nem a seguradora e nem tão pouco o Estado informaram adequadamente o Evandro que este veículo, para voltar a trafegar, deveria ter passado por uma vistoria após seu conserto e a nota fiscal das peças, apresentada no DETRAN.

Dissabores da vida, dirão alguns. Fatalidades dirão outros. Eu digo que o Estado, a polícia a que pertenço e, todos nós devemos internalizar o conceito de cidadania todos os dias e, sempre que possível usar a gentileza e o bom senso como bússola em nossas ações diárias.

Um grande abraço a todos. Aroldo.

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